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O país que formou mais dentistas que qualquer nação do mundo ainda tem 100 milhões de pessoas com medo de sorrir

Com 449 mil dentistas, R$ 38 bilhões em faturamento e tecnologia de ponta, o Brasil domina a odontologia global. Mas metade da população adulta nunca fez um tratamento completo. Quem vai resolver esse paradoxo e como?
Análise Especial · Saúde & Negócios · Brasil, Abril 2025


Em 1995, uma clínica odontológica foi inaugurada no andar de cima de uma padaria na Vila Císper, zona leste de São Paulo. Sem recepcionista, sem marketing, sem capital de giro. Só uma cadeira, um dentista e uma pergunta incômoda que o mercado inteiro preferia ignorar: por que saúde bucal de qualidade precisa ser privilégio? Trinta anos depois, essa pergunta ainda não tem resposta. E isso, por si só, já é uma notícia.


O Brasil construiu algo raro no mundo: a maior infraestrutura odontológica do planeta. São 449 mil cirurgiões-dentistas registrados no Conselho Federal de Odontologia aproximadamente um a cada cinco dentistas existentes no mundo inteiro. Há mais de 638 faculdades de odontologia em operação no país. O setor movimenta mais de R$ 38 bilhões por ano. Estudos de caso sobre empresas brasileiras do setor chegaram às salas de aula de Harvard e Stanford.


E ainda assim, mais de 100 milhões de brasileiros não têm acesso regular ao dentista.
“Somos o país com o maior número de cirurgiões-dentistas no mundo. É uma incoerência que ainda tenhamos pessoas sem acesso à saúde bucal.” Claudio Miyake, presidente do Conselho Federal de Odontologia, janeiro de 2025.


A palavra “incoerência” é honesta. Mas também é insuficiente. Porque o que está em jogo não é uma anomalia estatística é a falha estrutural de um modelo que confunde crescimento de mercado com resolução de problema.


O Paradoxo Perfeito
Existe uma lógica econômica simples que governa o mercado odontológico brasileiro: volume, não profundidade. Os planos odontológicos alcançaram 34,34 milhões de beneficiários em novembro de 2024, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar. Um crescimento de quase 7% em doze meses. Os números são apresentados como vitória. E de certa forma são. Mas representam apenas 16% da população.


O modelo tem uma lógica própria: mensalidades baixas, coberturas limitadas, procedimentos básicos. Limpeza, sim. Extração simples, sim. Implante, ortodontia, tratamento de canal complexo? Depende. Frequentemente sai do bolso ou não acontece. O resultado é que 86% dos gastos odontológicos no Brasil são de natureza curativa, não preventiva, conforme dados da Odontoprev, líder do setor na América Latina. O brasileiro vai ao dentista quando dói. Não quando precisa.


Os números do paradoxo fontes: CFO, ANS, IBGE, ABIMO (2024/2025)
449 mil dentistas registrados 20% do total mundial
68% dos brasileiros visitaram o dentista no último ano
80% das pessoas com renda acima de 10 salários mínimos vão regularmente
59% das pessoas com até 1 salário mínimo vão regularmente
14,1 milhões de brasileiros adultos perderam todos os dentes
86% dos gastos odontológicos são curativos, não preventivos
23% apenas dos pacientes buscaram atendimento pelo SUS no último ano
A Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE, realizada em 2019, mostrou que 8,9% dos brasileiros com mais de 18 anos já perderam todos os dentes — 14,1 milhões de pessoas. Um número que caiu em relação a 2013, mas que permanece assustador para um país que se proclama referência mundial na área. E o SUS atende apenas 23% dos brasileiros que buscam cuidado odontológico uma parcela mínima para uma rede que em teoria cobre todo o território nacional.


A Armadilha da Oferta


Nos últimos trinta anos, o Brasil tomou uma decisão silenciosa de política educacional: expandir sem limite a oferta de profissionais. Entre 1980 e os anos 2000, dezenas de novas faculdades de odontologia foram abertas. O argumento era simples mais dentistas, mais acesso. A lógica era razoável. O resultado, nem tanto.


Hoje, São Paulo concentra 107 mil dentistas. Minas Gerais, 44 mil. Rio de Janeiro, 35 mil. Enquanto isso, regiões do interior do Norte e Nordeste operam com uma fração desse contingente. A oferta existe, mas está geograficamente mal distribuída. E onde está bem distribuída, enfrenta um problema diferente: pacientes que não conseguem pagar pelos tratamentos que precisam.


O paradoxo tem nome técnico na literatura econômica: market failure, falha de mercado. O sistema produz profissionais, mas não produz acesso. Gera oferta, mas não cria demanda solvente. Forma dentistas que competem entre si por uma fatia de pacientes que, em sua maioria, só conseguem custear o básico.


Criar mercado não é o mesmo que resolver o problema. Você pode ter escala, volume e crescimento e ainda assim deixar metade das pessoas de fora.


Quem Vai Resolver?


A pergunta mais importante não é diagnóstica — ela já foi feita, repetida, citada em congressos e relatórios. A pergunta que o mercado ainda não respondeu de forma convincente é: quem tem interesse real em resolver isso, e como?


O Estado presente, mas insuficiente
O SUS tem uma rede de saúde bucal que existe há décadas. Em 2004, o Programa Brasil Sorridente foi lançado com ambição de transformar o acesso popular. Houve avanços. Mas a cobertura permanece limitada, desigual e restrita a procedimentos básicos. O sistema público sofre da mesma limitação que o privado: trata sintomas, não previne estruturalmente.


Os planos crescendo, mas sem profundidade
Os planos odontológicos privados crescem consistentemente. A OdontoPrev encerrou 2024 com receita líquida de R$ 2,27 bilhões e lucro de R$ 534 milhões. É um mercado saudável financeiramente. Mas seu modelo não foi desenhado para resolver o acesso profundo foi desenhado para oferecer cobertura básica acessível e rentável em escala. Isso não é crítica. É descrição. O problema é confundir os dois objetivos.


As franquias o modelo que mais se aproxima
O setor que mais claramente tentou atacar o problema do acesso com viabilidade econômica foi o de franquias odontológicas. O modelo é direto: padronização de processos, escala de compras, protocolo clínico, preço acessível, presença capilar. Em um país continental com distribuição desigual de renda e profissionais, é o único formato que consegue levar atendimento de qualidade a cidades médias e pequenas com consistência.


Hoje, o setor reúne mais de mil unidades em mais de vinte redes, com faturamento coletivo superior a R$ 50 milhões mensais. Diferente dos planos, as franquias realizam procedimentos completos não apenas o básico. A pergunta não é se o modelo funciona. A pergunta é se ele vai crescer rápido o suficiente para fechar uma lacuna de 100 milhões de pessoas.


O Futuro: Três Forças em Colisão
Os analistas do setor identificam três movimentos simultâneos que vão definir o próximo capítulo da odontologia brasileira e que, juntos, podem começar a mover a agulha do acesso real.


Tecnologia como nivelador. A teleodontologia, a inteligência artificial aplicada ao diagnóstico e os equipamentos de custo decrescente estão democratizando o que antes era exclusivo de grandes clínicas urbanas. Scanners intraorais, impressão 3D e CAD/CAM chegam progressivamente ao interior do país. A tecnologia, sozinha, não resolve o problema financeiro do paciente mas reduz o custo de entrega do serviço.


Novos modelos de financiamento. O mercado começa a experimentar formatos além do plano mensal tradicional: clubes de assinatura odontológica, pacotes por procedimento, parcelamentos integrados ao sistema financeiro. A Caixa Econômica Federal já distribui produtos odontológicos. O Banco do Brasil opera a BB Dental. O movimento dos grandes bancos em direção à saúde bucal não é coincidência é leitura de mercado.


Escala com método. As redes de franquia que sobreviverão à próxima década não serão aquelas com mais unidades abertas, mas aquelas com maior consistência clínica e operacional. O mercado odontológico está aprendendo, tardiamente, uma lição que o varejo já incorporou: expansão sem método não é crescimento é ruído.


“A odontologia brasileira é reconhecida mundialmente pela excelência. Mas precisamos garantir que ela alcance as pessoas mais carentes. Muitas doenças começam pela boca — e poderiam ser evitadas.” Paulo Henrique Fraccaro, CEO da ABIMO.


A Pergunta que Permanece
Há uma distinção fundamental que o debate sobre saúde bucal no Brasil ainda não internalizou completamente: a diferença entre construir um mercado e resolver um problema. O Brasil fez o primeiro com maestria. O segundo, ainda está em aberto.


Um mercado de R$ 38 bilhões com 449 mil profissionais e tecnologia de classe mundial coexiste com 14 milhões de adultos desdentados e dezenas de milhões que só buscam atendimento quando a dor se torna insuportável. Isso não é uma contradição acidental. É o resultado de décadas de escolhas — políticas, econômicas, educacionais — que priorizaram a expansão do sistema sem resolver seu problema central: o acesso real às camadas que mais precisam.


A boa notícia é que os instrumentos para mudar esse cenário existem. As franquias que capilarizam atendimento. A tecnologia que reduz custos. Os modelos financeiros que distribuem o pagamento. O Estado que pode ampliar protocolos preventivos. O problema nunca foi falta de solução. Foi falta de urgência.


A clínica que nasceu acima de uma padaria em 1995 na Vila Císper virou, três décadas depois, o maior ecossistema de saúde da América Latina. É uma história de escala. Mas a pergunta que a fundou por que saúde bucal precisa ser privilégio? ainda ecoa. E vai continuar ecoando até que os 100 milhões do lado de fora finalmente entrem.


Fontes: Conselho Federal de Odontologia (CFO); Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS); ABIMO — Censo da Odontologia 2024; Pesquisa Nacional de Saúde / IBGE 2019; Odontoprev — Resultados 2024; Sinog Perspectivas do Setor 2025; Harvard Business School; Stanford Graduate School of Business.

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